“Polilaminina: quando a ciência brasileira desafia o impossível”

Por Paulo Sergio de Carvalho 19/02/2026 - 20:12 hs
Foto: Reprodução/Instagram
“Polilaminina: quando a ciência brasileira desafia o impossível”
Brasil perde patente internacional da polilaminina após cortes na UFRJ

A bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tornou-se um dos nomes mais comentados da ciência nacional nos últimos meses graças ao desenvolvimento de uma substância experimental chamada polilaminina — um composto que, em estudos preliminares, mostrou potencial para estimular a recuperação de movimentos em pessoas com lesões na medula espinhal.

Quem é Dra. Tatiana?

Dra. Tatiana é bióloga, mestre e doutora em ciências pela própria UFRJ, onde atua como professora desde 1995 e é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular. Ao longo de quase três décadas, dedicou sua carreira à biologia regenerativa e à biologia celular, com foco especial em compreender como estímulos bioquímicos podem influenciar a regeneração de tecidos nervosos.


Sua trajetória também inclui estágios de pós-doutorado no exterior, incluindo a Universidade de Illinois e a Universidade de Erlangen‑Nuremberg, experiências que ampliaram suas conexões científicas e embasaram sua linha de pesquisa a partir dos anos 1990.

O que é a polilaminina?

A polilaminina é uma forma polimerizada de uma proteína chamada laminina, naturalmente presente no organismo e fundamental para a arquitetura da matriz extracelular — a “infraestrutura” que sustenta células e tecidos. A descoberta de Sampaio foi perceber que, ao reorganizar essa proteína em uma estrutura polimérica específica, era possível criar um ambiente bioquímico e físico potencialmente favorável à regeneração dos axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis por transmitir sinais ao longo da medula espinhal.

Aplicada diretamente no local da lesão em modelos experimentais, essa substância mostrou eficácia em estimular respostas celulares que antes eram consideradas quase impossíveis na vida adulta. Animadores relatos de recuperação parcial de movimentos em pacientes que receberam a substância via judicialização geraram repercussão pública e despertaram debates sobre o futuro do tratamento de lesões medulares.

Avanços e limitações atuais

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de ensaios clínicos de “fase 1” com a polilaminina — etapa inicial destinada a avaliar a segurança do composto em seres humanos, com um grupo pequeno de cinco voluntários que sofreram lesões recentes na medula espinhal. Os estudos clínicos são uma etapa fundamental antes que qualquer terapia possa ser aprovada como tratamento seguro e eficaz.

Especialistas ressaltam que, apesar de relatos positivos em alguns casos, é preciso cautela: ainda não existem estudos revisados por pares e controlados com grupo placebo capaz de comprovar que os efeitos observados têm relação causal direta com a polilaminina. Parte da comunidade científica chama atenção para a necessidade de resultados robustos antes de declarar a substância como “cura”.

Reconhecimento e desafios

O trabalho de Tatiana já repercutiu nacional e internacionalmente, sendo destacado por diversos veículos de mídia e considerada por alguns como um dos maiores avanços da ciência brasileira recente. Há até quem veja na descoberta potencial para um Prêmio Nobel no futuro, caso o composto avance com segurança nas fases de testes e demonstre eficácia comprovada em larga escala.

Entretanto, a pesquisadora também enfrenta desafios estruturais. Em entrevistas, ela relatou que o Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina por falta de recursos para manter a manutenção do registro em outros países, uma consequência de cortes orçamentários que afetaram a universidade e a pesquisa científica em 2015 e 2016. 

“Embora a patente nacional tenha sido preservada — inclusive com aporte financeiro pessoal meu para não perdê-la — o registro internacional simplesmente expirou por falta de recursos para custear sua extensão em outros países”, afirmou a cientista.

Aqui estão casos reais e noticiados sobre o uso da polilaminina:

  • Bruno Drummond de Freitas:
  • É um dos pacientes mais conhecidos, sendo apontado como um dos primeiros tetraplégicos a recuperar movimentos e voltar a andar após tratamento com polilaminina. Sua recuperação emocionou, inclusive, a ex-ginasta Laís Souza.
  • Diogo Barros Brolho: Tetraplégico após uma queda de um prédio no Rio de Janeiro, recuperou movimentos e sensibilidade, com notícias em janeiro de 2026 destacando sua evolução após o tratamento com a proteína experimental.
  • Paciente de 58 anos (Rio de Janeiro): Um homem que sofreu uma queda enquanto instalava um ar-condicionado, resultando em tetraplegia, conseguiu mexer braços e dedos dos pés após aplicação da substância, conforme divulgado em janeiro de 2026.
  • Jovem de 31 anos e Mulher de 27 anos: Estudos experimentais incluíram um jovem com lesão por acidente de trânsito e uma mulher que sofreu uma queda, ambos relatando recuperação de movimentos.
  • Romildo Leobino: Policial de 46 anos, foi o primeiro paciente no Maranhão a receber a substância, apresentando avanços após 28 dias do trauma, segundo relatos de fevereiro de 2026.

O que esperar agora?

O futuro da polilaminina ainda está em construção. A fase 1 de testes em humanos pode levar meses ou anos de acompanhamento para oferecer dados confiáveis sobre segurança. Só após essa etapa outras fases, que testarão eficácia de forma comparada, poderão começar — um processo que pode levar mais anos.

Enquanto isso, para muitas pessoas com lesões medulares graves, a descoberta representa uma esperança real, embora ainda embrionária, de tratamentos que um dia possam alterar profundamente paradigmas médicos até hoje considerados estáveis.